{"id":933,"date":"2020-04-28T14:18:13","date_gmt":"2020-04-28T17:18:13","guid":{"rendered":"http:\/\/anpuhpb.org\/site\/?p=933"},"modified":"2021-09-21T14:22:01","modified_gmt":"2021-09-21T17:22:01","slug":"nota-da-anpuh-br-o-veto-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anpuhpb.org\/site\/notas\/nota-da-anpuh-br-o-veto-a-historia\/","title":{"rendered":"NOTA DA ANPUH-BR: O VETO \u00c0 HIST\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na noite do dia 24 de abril de 2020, o presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, vetou o projeto de regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de historiador, que j\u00e1 havia sido aprovado na C\u00e2mara e no Senado. N\u00f3s podemos at\u00e9 fingir surpresa com o veto do presidente, mas a quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 um pouco mais complexa. Sim, t\u00ednhamos esperan\u00e7as, mas o contexto hist\u00f3rico n\u00e3o parecia sinalizar que a assinatura de Bolsonaro seria conquistada facilmente. Ele gosta de usar a caneta e faz isso reiteradamente para destruir, n\u00e3o para construir.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que a atual dire\u00e7\u00e3o da ANPUH assumiu a gest\u00e3o, estivemos preocupados em levar adiante o projeto de regulamenta\u00e7\u00e3o, iniciado h\u00e1 d\u00e9cadas. Muitos de nossos associados nos cobravam uma posi\u00e7\u00e3o, a despeito dos esfor\u00e7os incomensur\u00e1veis de v\u00e1rios ex-presidentes da ANPUH.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira iniciativa para regulamentar a profiss\u00e3o foi o projeto apresentado \u00e0 C\u00e2mara Federal pelo Deputado Almeida Pinto em 1968, logo arquivado pelo Regime Militar. Entre 1983 e 2000, v\u00e1rias propostas foram apresentadas, ainda sem sucesso. Em 2009, foi proposto o projeto do Senador Paulo Paim, mas que demorou bastante nas tramita\u00e7\u00f5es entre C\u00e2mara e Senado. Este projeto estava parado no Senado at\u00e9 o in\u00edcio deste ano. Logo quando assumimos, designamos o atual 2\u00ba Tesoureiro da ANPUH Brasil, o diretor Adalberto Paz (UNIFAP) para deslindar o hist\u00f3rico processo de regulamenta\u00e7\u00e3o e reiniciar articula\u00e7\u00f5es em Bras\u00edlia. Gra\u00e7as a esse empenho, muito apoiado pela historiadora Lara de Castro, no dia 18 de fevereiro deste ano, o projeto foi finalmente submetido \u00e0 vota\u00e7\u00e3o no Senado e aprovado. O texto votado era o projeto de lei que regulamenta a profiss\u00e3o de Historiador, PLS 368\/2009, de autoria do senador Paulo Paim (PT), acrescido do texto substitutivo N. 3\/2015.<\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o foi resultado, pois, de intensa articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da diretoria e de nossos associados a favor do projeto no Congresso Nacional. Paz e Castro conduziram as conversa\u00e7\u00f5es sobre a mat\u00e9ria legislativa com representantes pol\u00edticos do estado do Amap\u00e1, mais especificamente com o Senador Randolfe Rodrigues, historiador de forma\u00e7\u00e3o e associado \u00e0 ANPUH-AP. Ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o no Senado, o projeto foi encaminhado \u00e0 Secretaria da Presid\u00eancia no dia 2 de abril de 2020, e aguardou a san\u00e7\u00e3o do chefe do executivo federal. O prazo final para veto era o dia 24 de abril de 2020. Sem alarde, no \u00faltimo momento do prazo, Bolsonaro vetou o projeto com pareceres fr\u00e1geis exarados pelo Advogado da Uni\u00e3o e pelo Minist\u00e9rio da Economia, ambos espa\u00e7os pol\u00edticos de confian\u00e7a do presidente. J\u00e1 sab\u00edamos dessa possibilidade, por isso seguimos na mobiliza\u00e7\u00e3o para que o Congresso Nacional derrube o veto presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Como afirmamos no in\u00edcio, a rejei\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos surpreende: lidamos com frases e a\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de um governo que fere os princ\u00edpios mais b\u00e1sicos do direito \u00e0 vida, \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura. Al\u00e9m disso, seu principal projeto \u00e9 o aparelhamento de estruturas aut\u00f4nomas de uma sociedade democr\u00e1tica. A ci\u00eancia, a hist\u00f3ria, a justi\u00e7a, o parlamento s\u00f3 t\u00eam valor para este governo se servem aos seus interesses particulares e muitas vezes obscuros. Por isso, os que l\u00e1 est\u00e3o trabalham para destruir os espa\u00e7os de autonomia dos que defendem uma sociedade mais justa, igualit\u00e1ria e, sobretudo, que respeite a hist\u00f3ria. A \u00fanica hist\u00f3ria que serve para este governo \u00e9 uma &#8220;hist\u00f3ria&#8221; servil. Uma &#8220;hist\u00f3ria&#8221; servil, por\u00e9m, \u00e9 um mito, uma fic\u00e7\u00e3o, uma propaganda, mas certamente n\u00e3o \u00e9 Hist\u00f3ria enquanto um campo cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>A despeito de tudo que j\u00e1 foi escrito, no Brasil e no exterior, sobre a Ditadura Militar, por exemplo, o presidente insiste em comemorar o 31 de mar\u00e7o com o slogan \u201ca revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1964\u201d. Ningu\u00e9m que tenha estudado hist\u00f3ria e possa formar opini\u00e3o s\u00f3lida neste terreno defenderia a ditadura negando seu car\u00e1ter autorit\u00e1rio e golpista. N\u00e3o h\u00e1 opini\u00e3o s\u00f3lida que justifique a defesa da censura pr\u00e9via, da tortura e torturadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, Bolsonaro tem como projeto destruir a autonomia da Hist\u00f3ria como ci\u00eancia e como saber. Uma parte da popula\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o compreenda bem para que serve e o que \u00e9 a hist\u00f3ria enquanto um campo de conhecimento. Nossa tarefa \u00e9 enfrentar esse desafio e chegar at\u00e9 essas pessoas. Temos feito muito como associa\u00e7\u00e3o e como historiografia, mas muito ainda precisamos fazer. A luta pela regulamenta\u00e7\u00e3o tem sido uma oportunidade para refletir sobre o papel social dos profissionais da hist\u00f3ria. Isso n\u00e3o significa dizer que a regulamenta\u00e7\u00e3o fechar\u00e1 a porta para os que se veem como historiadores, ou criar\u00e1 qualquer reserva de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para encerrar, vamos listar o que a ANPUH-BRASIL est\u00e1 fazendo neste momento:<\/p>\n\n\n\n<p>a) Retomamos as articula\u00e7\u00f5es parlamentares para construir a derrubada do veto presidencial.<br>b) Estamos estreitando o contato com diversas associa\u00e7\u00f5es de nossa \u00e1rea e \u00e1reas afins para articular a\u00e7\u00f5es conjuntas.<br>c) Buscamos constantemente espa\u00e7os na grande imprensa e nos portais digitais para divulgar nossa luta e promover as iniciativas dos associados. V\u00e1rios de nossos associados j\u00e1 produziram por conta pr\u00f3pria materiais a respeito e publicaram em seus blogs, jornais e portais, como Jornalistas Livres, Caf\u00e9 Hist\u00f3ria etc.).<br>d) Vamos intensificar o debate e a campanha pela regulamenta\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando e valorizando os profissionais da hist\u00f3ria em suas diversas voca\u00e7\u00f5es e espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o.<br>e) Desde ontem estamos em campanha permanente em nossas redes sociais, produzindo material e mobilizando a comunidade para aumentar a press\u00e3o nos nossos representantes. Apenas no Facebook ontem alcan\u00e7amos quase 700 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que a comunidade historiadora pode fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>a) Refor\u00e7ar o engajamento com todas as redes sociais da Anpuh para que possamos cada vez mais agir de modo articulado e com a velocidade das demandas. \u00c9 preciso curtir, compartilhar e comentar em nossos espa\u00e7os p\u00fablicos digitais.<br>b) Construir suas pr\u00f3prias iniciativas de comunica\u00e7\u00e3o, seja em \u00e2mbito individual ou institucional. N\u00facleos de pesquisa, laborat\u00f3rios, programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, departamentos de hist\u00f3ria, escolas, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e de classe podem e devem ter a\u00e7\u00f5es de hist\u00f3ria p\u00fablica, divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e curadoria de conte\u00fados. Assim podermos formar uma grande rede de conhecimento seguro e de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cidad\u00e3.<br>c) Mobilizar para pressionar e apoiar parlamentares aliados do projeto em diversos n\u00edveis e frentes.<br>d) Buscar espa\u00e7os nas m\u00eddias tradicionais para defender o projeto e ampliar a consci\u00eancia sobre as fun\u00e7\u00f5es sociais dos profissionais da hist\u00f3ria.<br>e) Apoiar a filia\u00e7\u00e3o \u00e0 ANPUH-BRASIL e outras sociedades cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente vetou o projeto por medo e por m\u00e1 f\u00e9. Mas a evid\u00eancia hist\u00f3rica est\u00e1 a\u00ed para todo mundo ver. Enquanto milhares de pessoas morrem, o presidente est\u00e1 preocupado em vetar a profiss\u00e3o de historiador, essencial para explicar a hist\u00f3ria e o emaranhado de trag\u00e9dias que enfrentamos. Independente das vers\u00f5es mais ou menos incendi\u00e1rias a respeito do governo bolsonarista, h\u00e1 evid\u00eancias hist\u00f3ricas indiscut\u00edveis sobre o que ele representa. Continuaremos lutando para que o veto do presidente seja derrubado, mas regulamentada ou n\u00e3o, a profiss\u00e3o de Historiador existe e isso \u00e9 um fato inquestion\u00e1vel, irrefut\u00e1vel, incontorn\u00e1vel.<br><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rcia Maria Menendes Motta<br>Presidenta (bi\u00eanio 2019-2021)<br>Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria- ANPUH-BRASIL&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na noite do dia 24 de abril de 2020, o presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, vetou o projeto de regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o de historiador, que j\u00e1 havia sido aprovado na C\u00e2mara e no Senado. N\u00f3s podemos at\u00e9 fingir surpresa com o veto do presidente, mas a quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 um pouco mais complexa. 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